terça-feira, 6 de abril de 2010

Andy Warhol - A Antena da Cultura Pop







Andy Warhol deitado no sofá de seu estúdio em Nova York - a lendária Factory - em 1966. Uma habilidade assustadora para antecipar o futuro
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Andy Warhol deitado no sofá de seu estúdio 
em Nova York - a lendária Factory - em 1966. 
Uma habilidade assustadora para antecipar o futuro Foto: ©Bob Adelman / Magnum Photos/Magnum Photos/Latinstock Restrições (
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Beatles, Bob Dylan e Andy Warhol. Esses três nomes definem a década que mudou tudo no século XX, os anos 60. Bob Dylan bebeu nas tradições do passado - a poesia clássica americana e a música caipira do país, o country - para elevar o rock ao status de arte. Enquanto isso, os Beatles varriam, com seu radar, várias áreas da cultura, e assim moldaram o mais perfeito retrato da época. Se Dylan olhava para trás e os Beatles captavam o espírito do presente, o artista plástico Andy Warhol (1928-1987) era a antena que rastreava o futuro. Essa é a impressão que fica quando se vai à mostra Andy Warhol, Mr. America, em cartaz a partir do dia 20, na Estação Pinacoteca, em São Paulo. Trata-se da maior exposição dedicada ao artista já apresentada na América Latina, com 169 obras - 26 pinturas, 58 gravuras, 39 fotografias, 44 filmes e duas instalações. Andy Warhol pode ter sido um ícone dos anos 60, mas o que mais chama a atenção na individual é o tanto que sua obra diz sobre os dias de hoje. Ele parece ter captado, no nascedouro, um novo mundo que surgia: o do culto às celebridades, da democratização dos bens de consumo, e da exibição pública da vida pessoal, que atualmente ganha contornos máximos por meio dos reality shows, como o Big Brother, dos blogs e do Twitter.
Vote McGovern, 1972. © 2009 Andy Warhol Foundation for the Visual Arts  ARS, NY  SAVA, Buenos Air Foto:  (
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Grande parte das peças que integram o conjunto foram criadas quando o artista morava na lendária Factory ("fábrica", em inglês), em Nova York, um estúdio onde trabalhava, reunia amigos e promovia festas (leia crônica a partir da página 38). A mostra, que já passou por Bogotá, na Colômbia, e por Buenos Aires, na Argentina, centra-se no período entre 1961 e 1968, considerado o mais prolífico da trajetória do artista pop. São dessa época algumas de suas obras mais fortes no imaginário popular, todas presentes na seleção do curador Philip Larratt-Smith - como os retratos de Marilyn Monroe, as serigrafias das latas de sopa Campbell's, e os filmes chamados de Screen Tests (Testes de Tela). As peças vieram do museu de Pittsburgh, nos Estados Unidos, cidade natal do artista. Em Buenos Aires, escala da exposição antes de São Paulo, o Museu de Arte Latino-Americana (Malba) manteve-se com filas na porta durante toda a temporada - cerca de 200 mil pessoas visitaram a instituição ao longo dos quatro meses de duração da mostra. Embora tirar fotos fosse expressamente proibido, os espectadores sacavam discretamente seus celulares com câmeras diante dos mais conhecidos itens em exibição - as Marilyns e as Campbell's -, o que dá a exata medida do quanto Andy tem apelo ainda hoje.
Uncle Sam, 1981. © 2009 Andy Warhol Foundation for the Visual Arts  ARS, NY  SAVA, Buenos Aires. Foto:  (
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Por que razão isso ocorre? Antes, é necessário responder a outra pergunta: qual é, afinal, o tamanho de Andy Warhol na arte do século XX? A resposta situa-se em algum lugar entre os dois pontos de vista que balizam a discussão sobre a arte contemporânea. Um deles, sustentado por vários críticos - entre eles Luciano Trigo, que no final do ano passado lançou o livro A Grande Feira - defende que a última grande inovação nas artes plásticas foi a de Marcel Duchamp (1887-1968). O francês estabeleceu que o artista definia o que era ou não arte, e marcou a postura com um exemplo radical ao inscrever um urinol em um salão de arte. De acordo com esse ponto de vista, tudo o que se faz hoje é reciclar o pensamento de Duchamp - e assim as latas de sopa de Warhol, tanto quanto os tubarões em formol do britânico Damien Hirst, seriam repetições do urinol original. Outra maneira de pensar, defendida pela maioria dos artistas e pela outra metade dos críticos, considera essa ilação redutora e pontifica que o que conta são as questões levantadas pelas obras - sejam elas realizadas ou não de próprio punho por seus autores, repitam elas ou não o pensamento fundamental de Duchamp.
Self-Portrait, 1986. © 2009 Andy Warhol Foundation for the Visual Arts  ARS, NY  SAVA, Buenos Air Foto:  (
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MARILYNS EM SÉRIE


Warhol é importante pelas questões que sua produção levanta e pelas reflexões que provoca até hoje. Reflexões, claro, bastante diferentes das que as mesmas criações suscitaram nos anos 60. Por uma razão simples: Warhol falava de um novo mundo que nascia, e nós vivemos agora a consolidação deste mundo. Um passeio pela exposição que entra em cartaz em São Paulo evidencia isso. A seleção traz, por exemplo, a famosa série de silk-screens de Marilyn Monroe, desenvolvida a partir de 1962, no calor das notícias sobre o suposto suicídio da atriz. Cabe aqui um paralelo com o pintor espanhol Diego Velázquez (1599-1660), retratista oficial da corte do rei Felipe IV. Velázquez pintava o rei e a rainha porque não tinha escolha: era empregado da coroa. E a glória do rei não aumentava nem diminuía à ação do pincel do artista contratado. Quando Warhol opta por Marilyn, ao contrário, ele a legitima como figura central na arte pop do século XX, e não uma mera personagem do que, na época, se costumava chamar de "indústria cultural". Isso ocorre porque ele sobrepõe à marca "Marilyn" uma outra, igualmente poderosa, cuidadosamente cultivada: a dele próprio.
Self-Portrait in Drag, 1980. © 2009 Andy Warhol Foundation for the Visual Arts  ARS, NY  SAVA, Bu Foto:  (
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Quando iniciou sua Factory, em 1964, Warhol tinha duas obsessões na vida: ganhar dinheiro e ficar famoso, não necessariamente nessa ordem. O próprio loft, com as paredes cobertas com papel alumínio e o teto e o chão pintados com tinta prateada, acabou virando uma boa estratégia para o tão desejado sucesso. Warhol fazia questão de deixar sua porta sempre aberta para acolher as celebridades em alta e elas retribuíam com uma assiduidade de cartão de ponto. A modelo, atriz e socialite Edie Sedgwick tornou-se companhia constante. O cantor Bob Dylan também era um frequentador habitual do endereço, assim como Lou Reed e John Cale, membros da banda The Velvet Underground, que tinha justamente Warhol como empresário. O mais americano dos artistas americanos adorava uma fofoca, gastava horas ao telefone e não perdia uma boa festa. Tudo em nome da fama - e do dinheiro. Aos poucos, transformou-se em um produto. Sua casa, a Factory, virou marca. E sua atitude, suas companhias, enfim, sua imagem pública converteu-se em um meio para valorizar sua obra. O também artista Charles Henri Ford definiu muito bem certa vez o estilo de vida do amigo: "Andy numa ilha deserta não seria Andy".


É interessante lembrar que ele não imprimiu uma única Marilyn, mas uma série delas. Com isso, antecipou de certa forma que a reprodução infinita de imagens de personalidades definiria seus status de celebridades - sem nenhum mérito anterior, seja de nascimento (reis e rainhas, como no tempo de Velázquez), seja artístico. É só pensar em Britney Spears, a cantora que sucedeu Madonna sem ter um milésimo do talento de sua antecessora, mas ancorada numa tremenda habilidade para criar fatos que a mantivessem na mídia. Ou, chegando ao extremo, a socialite americana Paris Hilton, que se vale do mesmo artifício (no mês passado, coreografou um estudado pé-na-jaca no carnaval carioca).
Mao, 1972. © 2009 Andy Warhol Foundation for the Visual Arts  ARS, NY  SAVA, Buenos Aires. Foto:  (
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DIETA DA SOPA


Outra das intuições de Warhol tem a ver com as serigrafias das latas de sopa Campbell's, também presentes na exposição em São Paulo. Foi ele quem primeiro enxergou que as comidas prontas começavam a entrar no cardápio tanto do presidente de seu país quanto da classe média, e explicitou essa ideia ao estampar as latas em série. A primeira exposição de um conjunto de 32 delas ocorreu na Ferus Gallery, do galerista Irving Blum (e fez com que uma galeria vizinha, numa provocação, colocasse à venda, inclusive em promoção, várias embalagens verdadeiras da sopa). O que Warhol percebia - e inovava ao levar para a arte - era o entusiasmo generalizado que havia em torno de símbolos da cultura de massa.


Warhol fez o mesmo com a Coca-Cola, com as caixas de sabão em pó Brillo, de catchup Heinz e de sucrilhos Kellogg's. A reflexão que sua lata de sopa Campbell's, exposta na Estação Pinacoteca, provoca atualmente, é sobre a democratização dos bens de consumo. Os teóricos do que nos anos 60 se chamava de "massificação" achavam que o fetiche em torno de determinadas marcas tornaria as escolhas uniformes. Houve um momento em que isso realmente aconteceu, mas hoje o mundo caminha na direção oposta.


Por conta da produção em larga escala e da melhoria da qualidade de vida em diferentes pontos do planeta, a classe média de hoje vive mais ou menos como os milionários dos anos 20. Tem acesso a viagens internacionais (lembra de quando o seleto grupo que andava de avião era chamado de jet set?), bons vinhos e ao crescente circuito de restaurantes de grife. Ao contrário de uniformizar o gosto, como ocorria nos tempos da velha massificação, essa democratização o diversificou - no fenômeno conhecido como "cauda longa", descrito pelo ensaísta americano Chris Anderson: cada vez mais gente com dinheiro procura um número cada vez mais variado de produtos e marcas. Muito provavelmente Andy Warhol não pensou em nada disso quando colocou suas Campbell's na galeria - mas nós invariavelmente somos levados a refletir sobre o fenômeno quando olhamos para as latas na Estação Pinacoteca. E nos espantamos com o poder visionário do artista.
Cow Wallpaper,1971. Installation, Reprint 1994. © 2009 Andy Warhol Foundation for the Visual Arts Foto:  (
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TRÊS MINUTOS DE FAMA


Por fim, dá para dizer que Warhol de certa forma antecipou a superexposição da vida pessoal que, com a internet e seus populares sites de relacionamentos - isso sem contar os blogs e agora o Twitter -, tornou-se uma característica do século XXI. Na mostra em São Paulo, é possível assistir à série de Screen Tests de Warhol. Trata-se de filmetes com cerca de três minutos de duração cada, trazendo amigos jovens e bonitos do artista - entre eles, a modelo Edie Sedgwick e os cantores Bob Dylan e Lou Reed. Enquadrados em primeiro plano, eles eram instruídos a apenas encarar a câmera. Warhol, que usava pouca edição, nem ficava por perto durante a gravação. Apertava o botão "rec" e saía. Um incomodado Dylan surge fumando. Ann Buchanan, mulher do poeta Charles Plymell, chora. A modelo Jane Holzer aparece escovando os dentes. Os Screen Tests foram o maior sucesso da mostra em Buenos Aires.


As situações, por vezes íntimas demais, não causam um desconforto só à pessoa diante da lente. À medida que os vídeos avançam, o próprio espectador fica um tanto constrangido com as cenas: todo mundo se vê em alguma medida nas personagens filmadas. Além disso, em close, por um tempo considerável, mesmo os mais belos rostos acabam denunciando suas imperfeições. Notam-se as rugas, assimetrias, desproporções. Vaidoso, o próprio artista nunca se colocou diante da câmera para um, digamos assim, "auto-Screen Test". Assistir aos filmes de Warhol desperta um sentimento semelhante a acompanhar o Big Brother hoje, um misto de vergonha alheia e sadismo.


A diferença entre os amigos de Warhol nos Screen Tests e os BBBs é que os primeiros já eram famosos, e os segundos estão atrás de fama. Aliás, talvez não seja exagero dizer que, dos anos 60 para cá, esse desejo de notoriedade não apenas deixou de ser algo pejorativo como passou a ser uma vontade legítima, digna de declaração pública até. Todo mundo quer os seus... vamos lá... quinze minutos de fama, para reproduzir aqui a frase de Warhol que se tornou um clichê. E isso inclui o mundo dos artistas. Nomes como o já citado Damien Hirst e seu amigo Bono Vox, da banda irlandesa U2, e o americano Matthew Barney e sua mulher, a cantora islandesa Björk. À la Andy Warhol, eles também badalam em festas e transformam suas assinaturas em marcas. É como se todos interpretassem uma peça escrita nos anos 60, por um caipira de Pittsburgh com tremenda sensibilidade para entender o presente e assustadora habilidade para antecipar o futuro.


Colaborou Anna Rachel Ferreira


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ONDE E QUANDO
Andy Warhol, Mr. America. Estação Pinacoteca (largo General Osório, 66, Centro, São Paulo, SP, tel. 0++/11/3335-4990). De 20/3 a 23/5. De 3ª a dom., das 10h às 18h. R$ 6,00; grátis aos sáb.


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