quinta-feira, 8 de abril de 2010

Arte e mercado por Luciano Trigo


Obra de CildoMeireles
Autor de A Grande Feira, uma investigação sobre o mundo e o submundo do mercado das artes, o jornalista Luciano Trigo fala sobre nós e mitos da arte e do mercado no país: “hoje não existem, fora do mercado, critérios para diferenciar uma obra boa de uma obra duvidosa”.
Trigo discute também a relação entre o mercado brasileiro e o global: “existe um discurso ufanista de que a arte brasileira está ‘bombando’ lá fora, mas são casos pontuais.  Nossa posição ainda é periférica.”
Aponta também os problemas sobre o controle de operações deste mercado: “é sabido que a total falta de controle nas transações de compra e venda de obras de arte no Brasil faz com que esse mercado seja fértil para operações de lavagem de dinheiro de origem ilícita”, diz o autor.
Luciano fala ainda sobre a Bienal de São Paulo e sobre o domínio das grandes corporações sobre as instituições culturais brasileiras. Leia a entrevista na íntegra:
Leonardo Brant – Como está o Brasil em relação ao mercado global das artes? Qual o tamanho do mercado local e como ele se relaciona com o panorama mundial?
Luciano Trigo – É muito difícil dimensionar o tamanho do mercado, porque os indicadores são vagos e não há transparência. É certo que, na arte contemporânea – por convenção, a arte produzida por artistas nascidos após 1945 – surgiram, nas últimas duas décadas, alguns nomes brasileiros que conseguiram se inserir  no circuito internacional, por mérito próprio e pela maior profissionalização de galeristas. Vale citar aqui a importância crucial da ação estratégica, nos anos 80 e 90, do falecido Marcantonio Vilaça, a quem toda uma geração de artistas deve muito. Isso é bom, mas se a gente analisar os indicadores mais confiáveis do exterior, a conclusão é que a participação brasileira ainda é muito pequena. Por exemplo, o portal Artprice elabora um ranking rigoroso com base em vendas realizadas em leilões no mundo inteiro. No último ranking divulgado, entre os 500 artistas mais valorizados, só aparecem quatro brasileiros (Vik Muniz, Adriana Varejão, Beatriz Milhazes e Cildo Meireles) enquanto artistas de outros países emergentes, como a China e a Rússia, se contam às dezenas. Ou seja, existe um discurso ufanista de que a arte brasileira está “bombando” lá fora, mas são casos pontuais.  Nossa posição ainda é periférica.
LB – O seu livro escancara as relações entre artistas, galerias, marchands, curadores e dirigentes de museus e instituições culturais. Quais os desvios de função mais aparentes desses profissionais? Você acredita numa retomada ética no mundo das artes? Para onde vamos com isso?
LT – É uma questão complexa. Em qualquer época, agentes, práticas e instituições se articulam para constituir um sistema da arte, que privilegia e valoriza determinadas formas de expressão artística em detrimento de outras. A minha hipótese é que, por uma conspiração de fatores, hoje não existem, fora do mercado, critérios para diferenciar uma obra boa de uma obra duvidosa. Há uma comunhão de interesses entre as elites dos diferentes setores do sistema: as práticas dos críticos, professores de arte, curadores e administradores de instituições se confundem cada vez mais, e frequentemente eles trocam de papéis. Isso favorece uma lógica de compadrio, da panelinha, do clube fechado, na qual os relacionamentos contam muito mais que o valor artístico. Daí a multiplicação de obras extravagantes apresentadas como relevantes, no Brasil e no exterior: na França um importante museu de arte contemporânea abriga uma exposição de porcos tatuados, do artista belga Wim Delvoye. Já no Salão de Artes Visuais que está acontecendo agora em Natal, uma artista fez uma performance em que ficou nu e tirou um terço do ânus – isso num Salão oficial. Ou seja, a absoluta falta de critérios, justificada por um suposto pluralismo pós-moderno, está transformando em arte oficial, acadêmica, uma produção tola, uma releitura tosca de práticas que, na melhor das hipóteses, foram inovadoras 50 anos atrás. Acho que não se trata de levar isso para o campo da ética, até porque o principal argumento de quem defente esse tipo de produção é acusar de moralista e reacionário qualquer tipo de questionamento. Meu propósito no livro “A Granfe Feira” foi investigar um fenômeno sociocultural, não tive a pretensão de fazer julgamentos éticos.
Agora, por outro lado, é sabido que a total falta de controle nas transações de compra e venda de obras de arte no Brasil faz com que esse mercado seja fértil para operações de lavagem de dinheiro de origem ilícita. Não é á toa que banqueiros, megainvestidores e até narcotraficantes condenados pela Justiça nos últimos anos eram donos de coleções milionárias de obras de arte. Mas esse assunto já foge ao escopo do livro. Outra questão importante, que merece ser investigada com mais profundidade, é a da privatização da cultura, com a ação de grandes corporações intervindo no mercado e esvaziando o papel dos museus públicos.
LB – Como a arte serve a indústria financeira nos dias de hoje?
LT – Outra hipótese que levanto no livro é que a importância dos artistas mais valorizados no mercado internacional hoje está em valer muito dinheiro – e apenas nisso. Assim, se um quadro de Matisse vale como arte independente do que diga o mercado, as obras de Jeff Koons e Damien Hirst só valem dentro do mercado, que é altamente manipulável pelo marketing e pela mídia. Ninguém daria atenção a esses artistas se não soubesse que valem milhões de dólares. Sintomaticamente, Jeff Koons trabalhou no mercado financeiro, enquanto Damien Hirst foi praticamente inventado pelo magnata da publicidade Charles Saatchi, que ficou famoso por comandar a campanha vitoriosa do Partido Conservador, da neoliberal Margaret Thatcher, que tirou os trabalhistas do poder na Inglaterra – história bem documentada em mais de um livro. Ou seja, tudo se articula. Ao triunfo do modelo econômico neoliberal correspondeu a emergência de um sistema neoliberal da arte, no qual a esfera do lucro e da espetacularização se sobrepôs à arte propriamente dita. É a lógica desse sistema que eu tento decifrar em “A Grande Feira”, certamente de forma imperfeita. Mas o livro está tendo respostas muito boas em todo o Brasil, o que mostra que havia uma demanda reprimida por esse debate.
LB – Em sua opinião, a ausência de uma política para as artes é um dos fatores dessa fragilização ética? Como poderia atuar uma política nacional para as artes?
LT – Como eu disse, prefiro afastar a discussão da esfera da ética. Também não tenho muita clareza sobre qual deve ser a ação ideal do Estado na área das artes plásticas. Mas certamente a posição da classe artística também não é consensual: recentemente o Cildo Meireles deu uma entrevista criticando o “dirigismo cultural” e defendendo que a arte é assunto para a esfera privada, mas duvido que a maioria dos artistas concorde com isso. Eu, pessoalmente, acho que o foco deveria ser estimular uma produção mais diversificada e fortalecer o mercado interno, valorizando as manifestações artísticas regionais e independentes. Arte não deve ser monopólio de uma elite frequentadora de bienais e feiras internacionais. O discurso sobre a arte tampouco deve ser monopólio de uma elite. Também é preciso parar para refletir sobre o ensino da arte nas universidades. Muitos professores de arte hoje babam para Damien Hirst mas nunca ouviram falar, por exemplo, de Samico, o maior gravurista brasileiro vivo. Numa das centenas de mensagens que recebi, uma estudante de Artes Visuais da UERJ contou que um professor disse em sala que não era mais preciso aprender técnica, pintura, nada. “Deve ser porque ele não sabe pintar”, ela disse. E tem toda razão.
LB – Quais as suas expectativas em relação à Bienal de SP, prevista para o segundo semestre de 2010?
LT – Depois do fiasco da última Bienal, chamada de “Bienal do Vazio”, o que vier será lucro. Mas é quase consensual hoje que esse modelo das grandes Bienais está em crise. Em todo caso, a lista de artistas convidados já divulgada mostra que há uma valorização de nomes brasileiros dos anos 70, combinada com a presença de algumas estrelas internacionais, como Steve McQueen – cuja obra mais famosa é a reencenação de um trecho de um filme pastelão do Buster Keaton, uma grande bobagem que lhe valeu o Turner Prize, que aliás costuma premiar grandes bobagens. Também li que vão montar meia dúzia de terreiros no pavilhão, o que já é algo preocupante. Por fim, um dos curadores declarou numa entrevista que essa Bienal será um laboratório para algo que ele ainda não sabe direito o que é. Essa declaração é muito reveladora do atual estado das das coisas.

Sobre "Leonardo Brant " http://www.brant.com.br
Pesquisador de políticas culturais. Autor do livro "O Poder da Cultura" e diretor do webdocumentário Ctrl-V::VideoControl. mais






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