quinta-feira, 1 de abril de 2010

QI alto, raciocínio confuso ou artista plástico.





SÃO PAULO - Um ótimo resultado em testes de inteligência não mostra se alguém sabe pensar bem.

George W. Bush é um imbecil? Com certeza essa pergunta já passou pela cabeça de muita gente por causa dos seus turbulentos oito anos na presidência dos Estados Unidos. A resposta é “não”. O QI de Bush foi estimado em mais de 120, o que o coloca entre os 10% mais inteligentes de toda a população mundial. Claro que isso não explica tudo. Mesmo os simpatizantes do ex-presidente reconhecem que como pensador e tomador de decisões ele não é lá grande coisa.

Seu fiel redator de discursos, David Frum, chamou- o de superficial, nada curioso e mal informado. O comentarista político e ex-congressista republicano Joe Scarborough o acusou de falta de profundidade intelectual. O próprio Bush descreveu seu estilo de pensamento como “não muito analítico”. Como alguém com QI tão alto pode ter esse tipo de deficiência intelectual? Ou melhor: como uma pessoa “inteligente” pode agir de modo estúpido?

Keith Stanovich, professor de desenvolvimento humano e psicologia aplicada da Universidade de Toronto, no Canadá, luta contra essa aparente inconsistência há 15 anos. Ele acredita que ela se aplica a mais pessoas do que se pode imaginar. Segundo Stanovich, os testes de QI são ótimos apenas para medir certas habilidades mentais, como lógica, raciocínio abstrato, capacidade de aprendizagem e memória. Mas falham na hora de identificar a capacidade de uma pessoa fazer bons julgamentos na vida real, analisar criticamente uma informação ou driblar as armadilhas da intuição.

Esse tipo de raciocínio é exigido de todos a qualquer momento: temos de decidir que alimento comer, onde investir o dinheiro ou como lidar com um problema no trabalho. Stanovich diz que os testes de QI não se aplicam a essas situações. “Testes de QI medem um importante domínio do funcionamento cognitivo e são bons para prever o sucesso acadêmico e no trabalho”, afirma. “Mas são incompletos. Eles ficam aquém da variedade de habilidades que fazem parte da definição de pensar bem.”

Para David Perkins, que estuda o pensamento e as habilidades de raciocínio na Harvard Graduate School of Education, nos Estados Unidos, um QI elevado funciona como a altura de um jogador de basquete. “Para se destacar no esporte é preciso muito mais do que ser alto”, destaca. “Também é preciso muito mais para ser um bom pensador do que ter um QI enorme.”

Os testes de quociente de inteligência são utilizados por muitas empresas e universidades para ajudar na seleção dos “melhores” candidatos. Também desempenham papel importante em escolas e universidades nos Estados Unidos e no Reino Unido. Segundo Stanovich, a sociedade dá uma atenção exagerada a essas avaliações, que medem apenas uma parte limitada do funcionamento cognitivo. “Eles são supervalorizados. Acho que a maioria dos psicólogos concorda com isso”, diz Jonathan Evans, psicólogo cognitivo da Universidade de Plymouth, no Reino Unido.

Os críticos dos resultados de QI os classificam como indicadores pobres da inteligência completa de um indivíduo, incapazes de prever se uma pessoa vai se sair bem em uma profissão específica. No livro A Falsa Medida do Homem, de 1981, o paleontólogo Stephen Jay Gould (1941-2002) qualifica o quociente de inteligência como um artefato matemático de uso não científico, além de algo culturalmente e socialmente discriminatório.

Howard Gardner, da Harvard Graduate School of Education, tem argumentado controversamente há mais de 25 anos que a capacidade cognitiva é mais bem entendida em termos de inteligências múltiplas, que abrangem aptidões matemáticas, verbais, visuais e espaciais, fisiológicas, naturalistas, autorreflexivas, sociais e musicais.









Além da inteligência

Stanovich e outros pesquisadores não estão tentando redefinir a inteligência, que veem como um conjunto de habilidades mentais que podem, sim, ser medidas por testes de QI. Eles querem chamar a atenção para outras faculdades cognitivas, descritas como ferramentas essenciais do raciocínio. Elas são igualmente importantes para o julgamento e a tomada de decisões. “O QI é apenas uma parte do que significa ser esperto”, diz Evans.

Para perceber como a capacidade de raciocínio é diferente de inteligência, resolva o seguinte enigma: se cinco máquinas levam cinco minutos para fazer cinco objetos, quanto tempo levaria para 100 máquinas fazerem 100 objetos? A maioria das pessoas instintivamente dá a resposta errada: 100. Quando Shane Frederick apresentou, na Escola de Administração da Universidade Yale, nos Estados Unidos, esta e duas outras perguntas parecidas para 3 400 universitários — incluindo alguns de Harvard e Princeton —, apenas 17% acertaram as três (veja box abaixo). Um terço dos alunos errou todas elas.

Isso provavelmente ocorre porque nosso cérebro usa dois sistemas diferentes. Um deles é intuitivo e espontâneo, enquanto o outro é deliberativo e racional. O processamento intuitivo pode ser útil em alguns casos — a escolha de um parceiro em potencial, por exemplo, ou em situações com as quais alguém já teve muita experiência. Mas também pode nos fazer tropeçar, por exemplo, quando supervalorizamos nosso egocentrismo. O processamento deliberativo, por outro lado, é importante para resolver problemas dos quais temos consciência e pode nos ajudar a controlar nossas tendências intuitivas, se elas começarem a tomar as rédeas das nossas escolhas.





Cérebro desgovernado

Para Daniel Kahneman, da Universidade de Princeton, a inteligência é a potência do cérebro, enquanto o raciocínio é o controle. “Algumas pessoas que são intelectualmente capazes não se preocupam em se envolver muito no pensamento analítico e são mais inclinadas a confiar em sua intuição”, explica Evans. “Outras pessoas vão consultar sua intuição e racionalizá-la para ter certeza de que têm uma justificativa para o que estão fazendo.” Um teste de QI não consegue prever qual desses caminhos alguém vai seguir. Isso explica por que George W. Bush e pessoas supostamente inteligentes agem de forma estúpida.

A ideia de que Bush é apenas um tolo inteligente entre muitos — e de que inteligência é um indicador pobre do pensar bem — vem de uma série de experimentos recentes. Essas análises compararam o desempenho de pessoas com diferentes habilidades intelectuais na execução de tarefas. Em um estudo publicado no ano passado, Stanovich e Richard West, da Universidade James Madison, nos Estados Unidos, descobriram que não existe correlação entre a inteligência e a capacidade de uma pessoa evitar algumas armadilhas comuns do pensamento intuitivo.

Em determinados tipos de tarefas cognitivas, como as que envolvem relações numéricas, probabilidade ou raciocínio dedutivo, Stanovich e outros cientistas descobriram que as pessoas inteligentes têm melhor desempenho. Isto é verdadeiro quando as armadilhas intuitivas são óbvias, especialmente se a resposta correta depender de lógica ou de raciocínio abstrato, habilidades que os testes de QI medem bem.

Mas a maioria dos pesquisadores concorda que, em geral, a correlação entre inteligência e a tomada de decisões correta é frágil. A exceção ocorre quando as pessoas são avisadas de que podem estar vulneráveis a um viés de pensamento, caso em que aquelas com QI mais alto tendem a se sair melhor. Isto ocorre porque, segundo Evans, quem tem quociente de inteligência maior nem sempre pensa mais do que as outras pessoas. “Mas quando elas raciocinam, fazem melhor”, diz.

Analise, por exemplo, o seguinte problema. Jack está olhando para Anne, e Anne está olhando para George; Jack é casado, George não é. Tem alguma pessoa casada olhando para uma pessoa solteira? Diante das opções “sim”, “não”, ou “não pode ser determinado”, a maioria das pessoas escolhe a terceira alternativa — incorretamente. Se orientadas a pensar em todas as opções, no entanto, as pessoas com QI mais alto são mais propensas a chegar à resposta correta, que é “sim”. Não sabemos o estado civil de Anne, mas de qualquer forma uma pessoa casada estaria olhando para uma solteira. O que isso significa, diz Stanovich, é que “as pessoas inteligentes têm melhor desempenho quando você diz a elas o que fazer”.

Perkins explica que o QI indica somente maior capacidade de realizar raciocínios complexos para resolver problemas novos. “Pense em nossas mentes como holofotes. O QI mede a intensidade da luz, mas também é importante saber para onde nós a direcionamos. Algumas pessoas não apontam seus holofotes para outro lado por diversas razões — ideias arraigadas, tendência a evitar preocupações ou simplesmente precipitação.Um holofote de maior potência não é nenhuma proteção contra atitudes tolas.” Um levantamento dos membros da sociedade Mensa, formada por pessoas de alto QI, no Canadá, em meados dos anos 80, mostrou que cerca de metade acreditava em astrologia (44%), biorritmo (51%) e alienígenas (56%).

Mas a ideia de que o QI é uma medida pobre de racionalidade não está imune a críticas. Christopher Ferguson, que estuda os fatores genéticos e ambientais por trás do comportamento humano na Universidade do Texas A&M International, nos Estados Unidos, diz que como as pessoas com QI alto tendem a viver mais e a ganhar mais, devemos presumir que as mais inteligentes são mais racionais. “Elas tendem a ter mais conhecimento para tomar as melhores decisões”, acredita.

Apesar disso, Wandi Bruine de Bruin, da Universidade Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, demonstrou que a inteligência não pode ser o único fator para determinar se alguém é um bom pensador e tomador de decisões. Em um estudo com 360 moradores de Pittsburgh de idades entre 18 e 88 anos, sua equipe descobriu que, apesar das diferenças de QI, aqueles com melhor habilidade de raciocínio sofreram bem menos eventos negativos em suas vidas, como entrar em dívidas grandes de cartão de crédito, ter uma gravidez não planejada ou tomar uma suspensão na escola.

Andrew Parker, da Rand Corporation, em Pittsburgh, e Baruch Fischhoff, da Carnegie Mellon, encontraram uma associação similar entre adolescentes. Aqueles que pontuaram mais alto em um teste de capacidade de decisão bebiam menos, usavam menos drogas e se envolviam menos em comportamentos de risco em geral. De acordo com Fischhoff, isso sugere que o raciocínio pode ser mais importante do que a inteligência para experiências positivas de vida.





Vem aí o teste de QR

Uma crítica poderosa à teoria de Stanovich é a falta de uma prova de habilidades de raciocínio que possa ser aplicada em conjunto com os testes de QI. “Não é suficiente dizer que a inteligência não é medida. Você tem de propor formas alternativas para quantificar a racionalidade”, diz Kahneman. Stanovich afirma que desenvolver um teste de quociente de racionalidade (QR) exigiria um programa de pesquisa multimilionário, mas acrescenta que não há razão técnica ou conceitual para que não seja feito. Já existem vários candidatos, como as medidas de capacidade de decisão utilizadas por Bruine de Bruin e Fischhoff.

Mas um teste de QR seria útil? “Hipoteticamente sim, porque iria cobrir as habilidades que estão mais diretamente relacionadas com o que as pessoas farão em seus empregos”, diz Bruine de Bruin. Já Kahneman defende que os testes de QI funcionam bem para uma seleção acadêmica. “Mas eu gostaria muito seriamente de considerar testes de QR como uma forma de seleção dos gestores ou líderes, especialmente se eu estiver buscando um líder de estilo ponderado e não demasiadamente impulsivo”, diz.

Existe um inconveniente. Ao contrário do QI, seria fácil treinar as pessoas para ir bem em testes de QR. “Eles medem o grau em que estão inclinadas a usar a capacidade que possuem”, explica Evans. “Você poderia treiná-las para ignorar a intuição e usar o raciocínio no teste, mesmo que esta não seja sua inclinação normal.”

O lado positivo da história é que todos podem melhorar o seu raciocínio e sua capacidade de tomar decisões. Richard Nisbett, da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, descobriu que apenas meia hora de treinamento em raciocínio estatístico pode melhorar a capacidade de uma pessoa usar o raciocínio em situações cotidianas. Ninguém precisa de treinamento formal para se aprimorar: há muitos truques que podemos ensinar a nós mesmos, diz Perkins (veja box na pág. anterior).

Também podemos nos preparar melhor para eleger líderes que façam o mesmo. Segundo Stanovich, o sucessor de Bush é intelectualmente envolvido, mostra flexibilidade cognitiva, é capaz de questionar crenças, é sensível à inconsistência e mostra capacidade de pensar contra os fatos. “Eles não poderiam ser mais diferentes em seus perfis de raciocínio.” O QI do presidente Barack Obama, aliás, é desconhecido. Especialistas estimam que esteja bem acima da média. Mas o de Bush também estava.





Você sabe raciocinar?

Quando o pesquisador Shane Frederick apresentou os três problemas a seguir para 3 400 alunos nos Estados Unidos, apenas 17% deles conseguiram resolvê-los. A solução não depende de um QI alto. Você pode fazer melhor?

1 - Um taco e uma bola custam 1,10 dólar no total. O bastão custa 1 dólar a mais do que a bola. Quanto custa a bola?

2 - Se cinco máquinas levam cinco minutos para fazer cinco objetos, quanto tempo 100 máquinas levariam para fazer 100 objetos? Em um lago, há um caminho de vitórias-régias.

3 - A cada dia, ele dobra de tamanho. Se em 48 dias o caminho cobre todo o lago, em quanto tempo ele cobre apenas a metade?

Fonte: Shane Frederick, 2005

Respostas: 1- 5 centavos; 2 -5 minutos; 3 - 47 dias

3 comentários:

  1. 1- A bola custa Dez centavos.
    2-As máquinas levariam cem minutos para fazer cem objetos.
    3-24 dias.

    ;^)

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Amigos
    Leiam a entrevista do Autor do Livro: “A PROVA QUE DEUS EXISTE COM BASE CIENTÍFICA”, que mostra a importância do raciocínio Lógico com base analítica, onde através da Analogia Científica descobriu o método como provar fisicamente que existe um autor como agente matricial na causa do Universo e da vida existir!
    *
    PERGUNTA: -O método científico que usamos na comprovação física que Deus existe é através da Analogia de linearidades paralelas homólogas. Poderia explicar a razão que o levou identificar o método científico pela Analogia de linearidades paralelas homólogas? Não poderia ser simplesmente pela Analogia científica?
    Fernand Pontes: -Uma vez que separamos e isolamos a “inteligência” como elemento irrefutável que tem valor de mensurabilidade nos parâmetros de equivalência, e usamos como método a Analogia de linearidades paralelas homólogas para provar que existe um autor como agente matricial na causa do Universo e da vida existir, vem em razão do fato da inteligência existir na atividade laboral da cognatação na matéria para a formação do Universo, assim como a inteligência também existe no sentido laboral da atividade biológica para a formação dos organismos. Por isso não tínhamos como usar simplesmente a Analogia por existir atividade biológica que compreende, na sua mensurabilidade, o campo da homologia.
    PERGUNTA: -Existiria como última chance do Universo e a vida ter origem no “nada”?
    Fernand Pontes: -Não! O “nada ” seja no passado, no presente, ou no futuro continuará infinitamente absenteísta.

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