segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Antônio Gonçalves da Silva (Patativa do Assaré) Uma das principais figuras da música nordestina do século XX.

  Antônio Gonçalves da Silva, Patativa do Assaré é uma Brasileiro imortal, para aqueles que gostam de uma poesia nordestina, cheia de realidades do sofrido do seu povo, principalmente do Ceará.
O seu jeito inconfundível de recitar suas poesias e canta suas melodias
Patativa do Assaré
Sua poesia era ditada, feitas na hora da sua inspirarão isso que o tornava mais incrível, além de ser um grande homem de grande inteligência, que mesmo com todas as dificuldades de um nordestino na seca ele teve sentimentos em meio à ignorância para criar pensamentos e versos tão significantes para quem ler. Aos seus 12 anos tiveram poucos meses de alfabetização.



       Biografia

Uma das principais figuras da música nordestina do século XX. Segundo filho de uma família pobre que vivia da agricultura de subsistência, cedo ficou cego de um olho por causa de uma doença . Com a morte de seu pai, quando tinha oito anos de idade, passou a ajudar sua família no cultivo das terras. Aos doze anos, frequentava a escola local, em qual foi alfabetizado, por apenas alguns meses . A partir dessa época, começou a fazer repentes e a se apresentar em festas e ocasiões importantes. Por volta dos vinte anos recebeu o pseudônimo de Patativa, por ser sua poesia comparável à beleza do canto dessa ave. Sendo muito amigo da família Diniz.

Indo constantemente à Feira do Crato onde participava do programa da rádio Araripe, declamando seus poemas. Numa destas ocasiões é ouvido por José Arraes de Alencar que, convencido de seu potencial, lhe dá o apoio e o incentivo para a publicação de seu primeiro livro, Inspiração Nordestina, de 1956.
Este livro teria uma segunda edição com acréscimos em 1967, passando a se chamar Cantos do Patativa . Em 1970 é lançada nova coletânea de poemas, Patativa do Assaré: novos poemas comentados, e em 1978 foi lançado Cante lá que eu canto cá. Os outros dois livros, Ispinho e Fulô e Aqui tem coisa, foram lançados respectivamente nos anos de 1988 e 1994. Foi casado com Belinha, com quem teve nove filhos. Faleceu na mesma cidade onde nasceu.
Obteve popularidade a nível nacional, possuindo diversas premiações, títulos e homenagens (tendo sido nomeado por cinco vezes Doutor Honoris Causa). No entanto, afirmava nunca ter buscado a fama, bem como nunca ter tido a intenção de fazer profissão de seus versos. Patativa nunca deixou de ser agricultor e de morar na mesma região onde se criou (Cariri) no interior do Ceará. Seu trabalho se distingue pela marcante característica da oralidade. Seus poemas eram feitos e guardados na memória, para depois serem recitados. Daí o impressionante poder de memória de Patativa, capaz de recitar qualquer um de seus poemas, mesmo após os noventa anos de idade.
A transcrição de sua obra para os meios gráficos perde boa parte da significação expressa por meios não-verbais (voz, entonação, pausas, ritmo, pigarro e a linguagem corporal através de expressões faciais, gestos) que realçam características expressas somente no ato performático (como ironia, veemência, hesitação, etc.). A complexidade da obra de Patativa é evidente também pela sua capacidade de criar versos tanto nos moldes camonianos (inclusive sonetos na forma clássica), como poesia de rima e métrica ima e populares (por exemplo, a décima e a sextilha nordestina). Ele próprio diferenciava seus versos feitos em linguagem culta daqueles em linguagem do dia-a-dia (denominada por ele de poesia "matuta").

Patativa do Assaré


                    Autobiografia

 Eu, Antônio Gonçalves da Silva, filho de Pedro Gonçalves da Silva, e de Maria Pereira da Silva, nasci aqui, no Sítio denominado Serra de Santana, que dista três léguas da cidade de Assaré. Meu pai, agricultor muito pobre, era possuidor de uma pequena parte de terra, a qual depois de sua morte, foi dividida entre cinco filhos que ficaram, quatro homens e uma mulher. Eu sou o segundo filho.

Quando completei oito anos, fiquei órfão de pai e tive que trabalhar muito, ao lado de meu irmão mais velho, para sustentar os mais novos, pois ficamos em completa pobreza. Com a idade de doze anos, freqüentei uma escola muito atrasada, na qual passei quatro meses, porém sem interromper muito o trabalho de agricultor. Saí­ da escola lendo o segundo livro de Felisberto de Carvalho e daquele tempo para cá não freqüentei mais escola nenhuma, porém sempre lidando com as letras, quando dispunha de tempo para este fim. Desde muito criança que sou apaixonado pela poesia, onde alguém lia versos, eu tinha que demorar para ouvi-los. De treze a quatorze anos comecei a fazer versinhos que serviam de graça para os serranos, pois o sentido de tais versos era o seguinte: Brincadeiras de noite de São João, testamento do Juda, ataque aos preguiçosos, que deixavam o mato estragar os plantios das roças, etc. Com 16 anos de idade, comprei uma viola e comecei a cantar de improviso, pois naquele tempo eu já improvisava, glosando os motes que os interessados me apresentavam.

Nunca quis fazer profissão de minha musa, sempre tenho cantado, glosado e recitado, quando alguém me convida para este fim.

Quando eu estava nos 20 anos de idade, o nosso parente José Alexandre Montoril, que mora no estado do Pará, veio visitar o Assaré, que é seu torrão natal, e ouvindo falar de meus versos, veio à nossa casa e pediu à minha mãe, para que ela deixasse eu ir com ele ao Pará, prometendo custear todas as despesas. Minha mãe, embora muito chorosa, confiou-me ao seu primo, o qual fez o que prometeu, tratando-me como se trata um próprio filho.

Chegando ao Pará, aquele parente apresentou-me a José Carvalho, filho de Crato, que era tabelião do 1o. Cartório de Belém. Naquele tempo, José Carvalho estava trabalhando na publicação de seu livro “O matuto Cearense e o Caboclo do Pará”, o qual tem um capí­tulo referente a minha pessoa e o motivo da viagem ao Pará. Passei naquele estado apenas cinco meses, durante os quais não fiz outra coisa, senão cantar ao som da viola com os cantadores que lá encontrei.

De volta do Ceará, José Carvalho deu-me uma carta de recomendação, para ser entregue à Dra. Henriqueta Galeno, que recebendo a carta, acolheu-me com muita atenção em seu Salão, onde cantei os motes que me deram. Quando cheguei na Serra de Santana, continuei na mesma vida de pobre agricultor; depois casei-me com uma parenta e sou hoje pai de uma numerosa famí­lia, para quem trabalho na pequena parte de terra que herdei de meu pai. Não tenho tendência polí­tica, sou apenas revoltado contra as injustiças que venho notando desde que tomei algum conhecimento das coisas, provenientes talvez da polí­tica falsa, que continua fora do programa da verdadeira democracia.

Nasci a 5 de março de 1909. Perdi a vista direita, no perí­odo da dentição, em conseqüência da moléstia vulgarmente conhecida por Dor-d’olhos.

Desde que comecei a trabalhar na agricultura, até hoje, nunca passei um ano sem botar a minha roçazinha, só não plantei roça, no ano em que fui ao Pará.

ANTÔNIO GONÇALVES DA SILVA, Patativa do Assaré.


      Livros de poesia: de Patativa do Assaré, é só clik.
 

 Cante Lá que Eu Canto Cá (1978);
Balceiro. Patativa e Outros Poetas de Assaré (Org. com Geraldo Gonçalves de Alencar) (1991);
 Cordéis (caixa com 13 folhetos) (1993);
 Biblioteca de Cordel: Patativa do Assaré (Org. Sylvie Debs) (2000);
 Digo e Não Peço Segredo (Org. Guirlanda de Castro e Danielli de Bernardi) (2001;
  Balceiro 2. Patativa e Outros Poetas de Assaré (Org. Geraldo Gonçalves de Alencar) (2001);
  Ao pé da mesa (co-autoria com Geraldo Gonçalves de Alencar) (2001);
  Antologia Poética (Org. Gilmar de Carvalho) (2002);
  Cordéis e Outros Poemas (Org. Gilmar de Carvalho) (2008). 












    Triste Partida
    Patativa do Assaré
    Composição: Patativa do Assaré
    Meu Deus, meu Deus. . .

    Setembro passou
    Outubro e Novembro
    Já tamo em Dezembro
    Meu Deus, que é de nós,
    Meu Deus, meu Deus
    Assim fala o pobre
    Do seco Nordeste
    Com medo da peste
    Da fome feroz
    Ai, ai, ai, ai
    A treze do mês
    Ele fez experiência
    Perdeu sua crença
    Nas pedras de sal,
    Meu Deus, meu Deus
    Mas noutra esperança
    Com gosto se agarra
    Pensando na barra
    Do alegre Natal
    Ai, ai, ai, ai
    Rompeu-se o Natal
    Porém barra não veio
    O sol bem vermeio
    Nasceu muito além
    Meu Deus, meu Deus
    Na copa da mata
    Buzina a cigarra
    Ninguém vê a barra
    Pois a barra não tem
    Ai, ai, ai, ai
    Sem chuva na terra
    Descamba Janeiro,
    Depois fevereiro
    E o mesmo verão
    Meu Deus, meu Deus
    Entonce o nortista
    Pensando consigo
    Diz: "isso é castigo
    não chove mais não"
    Ai, ai, ai, ai
    Apela pra Março
    Que é o mês preferido
    Do santo querido
    Senhor São José
    Meu Deus, meu Deus
    Mas nada de chuva
    Tá tudo sem jeito
    Lhe foge do peito
    O resto da fé
    Ai, ai, ai, ai
    Agora pensando
    Ele segue outra tria
    Chamando a famia
    Começa a dizer
    Meu Deus, meu Deus
    Eu vendo meu burro
    Meu jegue e o cavalo
    Nós vamos a São Paulo
    Viver ou morrer
    Ai, ai, ai, ai
    Nós vamos a São Paulo
    Que a coisa tá feia
    Por terras alheia
    Nós vamos vagar
    Meu Deus, meu Deus
    Se o nosso destino
    Não for tão mesquinho
    Cá e pro mesmo cantinho
    Nós torna a voltar
    Ai, ai, ai, ai
    E vende seu burro
    Jumento e o cavalo
    Inté mesmo o galo
    Venderam também
    Meu Deus, meu Deus
    Pois logo aparece
    Feliz fazendeiro
    Por pouco dinheiro
    Lhe compra o que tem
    Ai, ai, ai, ai
    Em um caminhão
    Ele joga a famia
    Chegou o triste dia
    Já vai viajar
    Meu Deus, meu Deus
    A seca terrível
    Que tudo devora
    Lhe bota pra fora
    Da terra natá
    Ai, ai, ai, ai
    O carro já corre
    No topo da serra
    Oiando pra terra
    Seu berço, seu lar
    Meu Deus, meu Deus
    Aquele nortista
    Partido de pena
    De longe acena
    Adeus meu lugar
    Ai, ai, ai, ai
    No dia seguinte
    Já tudo enfadado
    E o carro embalado
    Veloz a correr
    Meu Deus, meu Deus
    Tão triste, coitado
    Falando saudoso
    Seu filho choroso
    Exclama a dizer
    Ai, ai, ai, ai
    De pena e saudade
    Papai sei que morro
    Meu pobre cachorro
    Quem dá de comer?
    Meu Deus, meu Deus
    Já outro pergunta
    Mãezinha, e meu gato?
    Com fome, sem trato
    Mimi vai morrer
    Ai, ai, ai, ai
    E a linda pequena
    Tremendo de medo
    "Mamãe, meus brinquedo
    Meu pé de fulô?"
    Meu Deus, meu Deus
    Meu pé de roseira
    Coitado, ele seca
    E minha boneca
    Também lá ficou
    Ai, ai, ai, ai
    E assim vão deixando
    Com choro e gemido
    Do berço querido
    Céu lindo azul
    Meu Deus, meu Deus
    O pai, pesaroso
    Nos filho pensando
    E o carro rodando
    Na estrada do Sul
    Ai, ai, ai, ai
    Chegaram em São Paulo
    Sem cobre quebrado
    E o pobre acanhado
    Procura um patrão
    Meu Deus, meu Deus
    Só vê cara estranha
    De estranha gente
    Tudo é diferente
    Do caro torrão
    Ai, ai, ai, ai
    Trabaia dois ano,
    Três ano e mais ano
    E sempre nos prano
    De um dia vortar
    Meu Deus, meu Deus
    Mas nunca ele pode
    Só vive devendo
    E assim vai sofrendo
    É sofrer sem parar
    Ai, ai, ai, ai
    Se arguma notícia
    Das banda do norte
    Tem ele por sorte
    O gosto de ouvir
    Meu Deus, meu Deus
    Lhe bate no peito
    Saudade lhe molho
    E as água nos óio
    Começa a cair
    Ai, ai, ai, ai
    Do mundo afastado
    Ali vive preso
    Sofrendo desprezo
    Devendo ao patrão
    Meu Deus, meu Deus
    O tempo rolando
    Vai dia e vem dia
    E aquela famia
    Não vorta mais não
    Ai, ai, ai, ai
    Distante da terra
    Tão seca mas boa
    Exposto à garoa
    À lama e o paú
    Meu Deus, meu Deus
    Faz pena o nortista
    Tão forte, tão bravo
    Viver como escravo
    No Norte e no Sul
    Ai, ai, ai, ai

    2 comentários:

    1. que exemplo de vida todos tinham saber e conhecer
      essa história e ser e seguir-lo
      esse poeta voz lindissima ***

      parabéns fernando belo blog [*o*]

      ResponderExcluir
    2. VACA ESTRELA E BOI FUBÁ, de Patativa do Assaré

      Seu doutor me dê licença pra minha história contar.
      Hoje eu tô na terra estranha, é bem triste o meu penar.
      Mas já fui muito feliz vivendo no meu lugar.
      Eu tinha cavalo bom e gostava de campear.
      E todo dia aboiava na porteira do curral.

      Ê ê ê ê la a a a a ê ê ê ê Vaca Estrela,
      ô ô ô ô Boi Fubá.

      Eu sou filho do Nordeste , não nego meu naturá
      Mas uma seca medonha me tangeu de lá pra cá
      Lá eu tinha o meu gadinho, num é bom nem imaginar,

      Minha linda Vaca Estrela e o meu belo Boi Fubá
      Quando era de tardezinha eu começava a aboiar

      Ê ê ê ê la a a a a ê ê ê ê Vaca Estrela,
      ô ô ô ô Boi Fubá.

      Aquela seca medonha fez tudo se atrapalhar,
      Não nasceu capim no campo para o gado sustentar
      O sertão esturricou, fez os açude secar
      Morreu minha Vaca Estrela, já acabou meu Boi Fubá
      Perdi tudo quanto tinha, nunca mais pude aboiar

      Ê ê ê ê la a a a a ê ê ê ê Vaca Estrela,
      ô ô ô ô Boi Fubá.

      Hoje nas terra do sul, longe do torrão natá
      Quando eu vejo em minha frente uma boiada passar,
      As água corre dos olho, começo logo a chorá
      Lembro a minha Vaca Estrela e o meu lindo Boi Fubá
      Com saudade do Nordeste, dá vontade de aboiar

      Ê ê ê ê la a a a a ê ê ê ê Vaca Estrela,
      ô ô ô ô Boi Fubá.

      ResponderExcluir