segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Steve Jobs em Stanford




Steve Jobs

Estou honrado em estar com vocês hoje na formatura de uma das melhores
universidades do mundo. Eu nunca me formei na faculdade. Verdade seja
dita,
hoje é o dia da minha vida que cheguei mais perto de uma formatura de
faculdade. Hoje eu quero contar a vocês três histórias da minha vida. É
só isso. Não é grande coisa. Só três histórias.



A primeira história é sobre ligar os pontos.

Eu deixei a Reed College depois dos primeiros 6 meses, mas então eu
fiquei por lá como visitante por outros 18 meses mais ou menos, antes de
eu realmente sair. Então por que eu saí?

Tudo começou antes de eu nascer. Minha mãe biológica era jovem,
solteira e recém-formada. Decidiu me entregar para adoção. Queria que eu
tivesse formação universitária. Ficou arranjado que, ao nascer, eu seria
entregue a um advogado e a sua esposa. Mas, no último instante, eles
decidiram que queriam uma menina. Então, o casal seguinte da lista de
espera recebeu uma ligação no meio da noite: 'Temos um bebê inesperado,
vocês querem ficar com ele?'. Eles disseram: 'Claro'. Mas minha mãe
(adotiva) nunca havia se formado e meu pai (adotivo) não havia concluído
a escola secundária. Minha mãe biológica se recusou a assinar os papéis
de adoção. Só mudou de idéia depois de alguns meses, quando meus pais
prometeram que eu teria formação superior.

E 17 anos depois eu fui pra faculdade. Mas ingenuamente eu escolhi uma
faculdade quase tão cara quanto Stanford, e todas as economias dos meus
pais de classe operária estavam sendo gastos na minha educação superior.
Depois de seis meses, eu não podia enxergar benefício naquilo. Eu não
tinha idéia do que queria fazer com minha vida e nenhuma idéia de como a
faculdade poderia me ajudar a descobrir. E lá estava eu gastando todo o
dinheiro que meus pais economizaram durante toda a vida. Então eu decidi
sair e confiar que tudo ia acabar dando certo. Era bem assustador naquela
época, mas olhando para trás, foi uma das melhores decisões que eu já
tomei. Assim que eu saí eu pude parar de assistir as aulas obrigatórias
que não me interessavam, e comecei a assistir as que pareciam
interessantes.

Nem tudo foi tão romântico. Eu não tinha um dormitório, então eu
dormia no chão do quarto dos amigos; eu devolvia garrafas de coca-cola aos
depósitos por 5 centavos pra poder comprar comida; e eu andava as 7 milhas
(11,2 km) através da cidade toda noite de domingo pra pegar uma boa
refeição semanal no templo Hare Krishna. Eu amava aquilo. E muito do que
eu encontrei seguindo minha curiosidade e intuição se mostrou de valor
incalculável mais tarde. Deixe-me dar um exemplo:

A Reed College naquele tempo oferecia talvez a melhor instrução sobre
caligrafia no país. Por todo o campus, cada pôster, cada etiqueta em cada
gaveta, apresentava uma bela caligrafia manual. Por eu ter saído e não
ter que assistir as aulas normais, eu decidi tomar aulas de caligrafia
para
aprender a fazer aquilo. Eu aprendi sobre caracteres com e sem serifa,
sobre a variação do espaço entre diferentes combinações de letras,
sobre o que torna a grande tipografia grande. Era bonita, histórica,
artisticamente sutil de uma maneira que a ciência não pode capturar, e eu
achei aquilo fascinante.

Nada disso tinha sequer um lampejo de aplicação prática na minha vida.
Mas dez anos depois, quando nós estávamos projetando o primeiro
computador Macintosh, aquilo tudo voltou. E nós colocamos tudo no Mac. Foi
o primeiro computador com uma tipografia bonita. Se eu nunca tivesse
entrado naquele simples curso da faculdade, o Mac nunca teria múltiplos
tamanhos de letra ou fontes proporcionalmente espaçadas. E como o Windows
só copiou o Mac, provavelmente nenhum computador pessoal teria. Se eu
nunca tivesse deixado a faculdade, eu nunca teria entrado na aula de
caligrafia, e os computadores pessoais poderiam não ter a maravilhosa
tipografia que eles têm. Claro que era impossível ligar os pontos olhando
pra frente quando eu estava na faculdade. Mas ficou muito, muito claro
olhando pra trás dez anos depois.

De novo: você não pode ligar os pontos olhando adiante; você só pode
liga-los olhando pra trás. Então você tem que confiar que os pontos de
algum jeito vão se ligar em seu futuro. Você tem que confiar em alguma
coisa - seu intestino, destino, vida, karma, seja o que for. Essa idéia
nunca me deixou cair, e fez toda a diferença na minha vida.

Minha segunda história é sobre amor e perda.

Eu fui sortudo - descobri o que eu amava fazer bem cedo. Woz (Steve
Wozniak) e eu começamos a Apple na garagem dos meus pais quando eu tinha
20 anos. Nós trabalhamos duro, e em 10 anos a Apple cresceu de apenas nós
dois numa garagem até uma companhia de 2 bilhões de dólares com mais de
4000 empregados. Nós tínhamos acabado de lançar nossa maior criação -
o Macintosh - um ano antes, e eu tinha acabado de fazer 30. E então eu fui
demitido. Como você pode ser demitido de uma empresa que fundou? Bem, à
medida que a Apple crescia, contratei uma pessoa que pensei ser talentosa
para administrar a empresa comigo. Mas nossa visão do futuro começou a
divergir e tivemos um desentendimento. Quando isso aconteceu, a diretoria
ficou do lado dessa pessoa. Fiquei arrasado.

Eu realmente não sabia o que fazer por alguns meses. Eu sentia que tinha
falhado diante de toda a geração anterior de empreendedores - que eu
deixei cair o bastão quando ele estava sendo passado a mim. Encontrei
David Packard e Bob Noyce e tentei me desculpar por ter trabalhado tão
mal. Eu era um fracasso público, e eu até pensei em fugir do vale. Mas
algo começou a surgir lentamente em mim - eu ainda amava o que eu fazia. A
série de eventos na Apple não tinha mudado isso nem um pouco. Eu fui
rejeitado, mas eu ainda estava apaixonado. Então eu decidi recomeçar.

Eu não via isso na hora, mas o fato é que ser demitido da Apple foi a
melhor coisa que jamais poderia ter me acontecido. O peso de ser bem
sucedido foi trocado pela leveza de ser um iniciante de novo, sem ter
certeza de quase nada. Isso me libertou para entrar num dos períodos mais
criativos da minha vida.

Nos cinco anos seguintes, eu comecei uma empresa chamada NeXT, outra
empresa chamada Pixar, e me apaixonei por uma magnífica mulher que se
tornaria minha esposa. A Pixar criou o primeiro filme de animação por
computador, Toy Story, e hoje é o mais bem sucedido estúdio de animação
do mundo. Numa memorável seqüência de eventos, a Apple comprou a NeXT,
eu retornei à Apple, e a tecnologia que nós desenvolvemos na NeXT está
no coração da atual ressurreição da Apple. E Laurence e eu temos uma
maravilhosa família juntos.

Tenho toda a certeza de que nada disso teria acontecido se eu não fosse
demitido da Apple. Foi um remédio de gosto amargo, mas acho que o paciente
precisava dele. Às vezes a vida te bate na cabeça com um tijolo. Não
perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me manteve em
ação foi o fato de que eu amava o que fazia. Você tem que achar o que
você ama, sua paixão. E isso é tão verdadeiro para o seu trabalho
quanto é para seu companheiro. Seu trabalho vai ocupar uma grande parte da
sua vida, e o único jeito de ficar verdadeiramente satisfeito é fazer o
que você acredita que é um belo trabalho. E o único jeito de fazer um
belo trabalho é amar o que você faz. Se você ainda não achou, continue
procurando. Não fique sentado. De todo o coração, você vai saber quando
encontrar. E, como qualquer grande relacionamento, só melhora mais e mais
conforme os anos vão passando. Então continue procurando até achar. Não
fique sentado.

Minha terceira história é sobre a morte.

Quando eu tinha 17 anos, eu li uma citação mais ou menos assim: "Se
você viver cada dia como se fosse o último, algum dia provavelmente você
vai acertar". Aquilo me impressionou, e desde então, nos últimos 33 anos,
eu tenho olhado no espelho cada manhã e perguntado a mim mesmo: "Se hoje
fosse o último dia da minha vida, eu ia querer fazer o que eu vou fazer
hoje?" E sempre que a resposta foi "Não" por vários dias seguidos, eu
soube que eu tinha que mudar alguma coisa.

Lembrar que eu logo vou estar morto é a ferramenta mais importante que eu
já encontrei pra me ajudar a fazer grandes escolhas na vida. Porque quase
tudo - toda a expectativa exterior, todo o orgulho, todo o medo de
dificuldades ou falhas - estas coisas simplesmente somem em face da morte,
deixando apenas o que é realmente importante. Lembrar que você vai morrer
é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de achar que
você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não
seguir seu coração.

Mais ou menos há um ano eu recebi um diagnóstico de câncer. Eu fiz um
exame às 7:30 da manhã, e ele mostrou claramente um tumor no meu
pâncreas. E eu nem sabia o que era um pâncreas! Os médicos me disseram
que era quase com certeza um tipo incurável de câncer, e que eu não
devia esperar viver mais do que de três a seis meses. Meu médico me
aconselhou a ir pra casa e botar meus negócios em ordem, o que no idioma
dos médicos significa: prepare-se para morrer. Significa tentar dizer aos
seus filhos tudo o que você pensou que teria os próximos 10 anos para
lhes dizer, em apenas uns poucos meses. Significa ter certeza que tudo
está no lugar para que seja tão fácil quanto possível para sua
família. Significa dizer adeus.

Eu fiquei com aquele diagnóstico o dia inteiro. Depois, naquela noite eu
tive uma biópsia, em que eles enfiaram um endoscópio na minha garganta,
através do meu estômago e dentro dos meus intestinos, colocaram uma
agulha no meu pâncreas e pegaram algumas células do tumor. Eu estava
sedado, mas minha esposa, que estava lá, me disse que quando eles viram as
células no microscópio os médicos começaram a chorar porque descobriram
que era uma forma muito rara de câncer pancreático que é curável
através de cirurgia. Eu passei pela cirurgia e hoje eu estou bem.

Isto foi o mais perto que eu cheguei de encarar a morte, e eu espero que
seja o mais perto que eu chegue por algumas décadas mais. Tendo
sobrevivido, hoje eu posso dizer isto a vocês com um pouco mais de certeza
do que quando a morte era um conceito útil mas puramente intelectual:

Ninguém quer morrer. Mesmo as pessoas que querem ir para o Céu não
querem morrer pra chegar lá. E mesmo assim, a morte é o destino que todos
nós compartilhamos. Ninguém nunca escapou dela. E é como deve ser,
porque a Morte é muito provavelmente a melhor invenção da Vida. É o
agente de mudança da Vida. Ela tira o velho do caminho pra dar espaço pro
novo. Por enquanto o novo são vocês, mas algum dia não muito distante,
vocês gradualmente vão se tornar os velhos e sair do caminho. Me desculpe
por ser tão dramático, mas essa é a verdade.

Seu tempo é limitado, então não o perca vivendo a vida de outra pessoa.
Não caia na armadilha do dogma - que é viver com os resultados do
pensamento de outra pessoa. Não deixe o ruído da opinião alheia sufocar
sua voz interior. E mais importante, tenha coragem de seguir seu coração
e sua intuição. Eles de alguma forma já sabem o que você realmente quer
se tornar. Tudo o mais é secundário.

Quando eu era jovem, havia uma publicação maravilhosa chamada "The Whole
Earth Catalog" (O Catálogo de Toda a Terra), uma das bíblias da minha
geração. Tudo era feito com máquinas de escrever, tesouras e
polaróides. Era tipo um Google em formato brochura, mas 35 anos antes do
Google. Era idealista e trazia uma abundância de recursos elegantes e
idéias brilhantes.

Stewart e sua equipe publicaram várias edições do "The Whole Earth
Catalog", e então quando seu papel estava cumprido, eles publicaram uma
edição final. Estávamos em meados dos anos 70, e eu tinha a idade de
vocês. Na contracapa, havia a fotografia de uma estradinha de terra ao
amanhecer, do tipo em que você poderia ficar pegando carona se você for
aventureiro. Embaixo, lia-se: "Stay hungry; stay foolish" (Mantenha-se
ávido; mas não se leve tão a sério). Era a mensagem de despedida deles.
E tenho sempre desejado isso para mim. E agora, eu desejo isto a vocês.Stay Hungry. Stay Foolish.

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